Plataforma CORPOCIDADE : modos de ação experimental e reflexão crítica, Detours/Desvios IV, Fabiana Dultra Britto, Paola Berenstein Jacques

Plataforma CORPOCIDADE : modos de ação experimental e reflexão crítica

Fabiana Dultra Britto, Paola Berenstein Jacques

 

Resumo : O Corpocidade, começou como um encontro acadêmico artístico e desdobrou-se em outras ações de diferentes naturezas (acadêmicas, de pesquisa, editoriais, de experiências metodológicas) que passaram a integrar o que chamamos de Plataforma Corpocidade : um conjunto de atividades articuladas em torno de um mesmo projeto crítico de resistência ao atual processo de espetacularização das cidades, pacificação dos espaços públicos e seu conseqüente apaziguamento da experiência urbana e corporal dos seus habitantes. Com este propósito, a Plataforma Corpocidade vem, há 5 anos, testando diferentes maneiras de articulação entre arte e pesquisa acadêmica em diferentes campos disciplinares para construir um debate crítico e propositivo sobre as diferentes relações entre urbanismo, arte, corpo e cidade, em busca de caminhos alternativos para o redesenho das suas condições participativas da vida pública em que estão co-implicados. Ver : http://www.corpocidade.dan.ufba.br

 

Apresentação :

 

A plataforma Corpocidade, que vamos apresentar aqui, resulta do um processo de interlocução iniciado em 2007, entre nossos dois campos disciplinares de formação profissional e atuação acadêmica – Dança e Arquitetura/Urbanismo – a partir do nosso interesse comum em desenvolver estudos sobre os processos interativos entre as cidades e os corpos de seus habitantes. De um lado, havia o interesse pela compreensão do ambiente urbano como contexto da produção artística em dança e, de outro, havia o interesse pela implicação do corpo nos estudos urbanos. Mas, em ambos os casos, havia um pressuposto comum, uma mesma preocupação crítica :   a « esterilização” da experiência pública das cidades contemporâneas decorrente do crescente processo de espetacularização das cidades, mas também das artes e do proprio corpo.

 

Pensando em ampliar a interlocução sobre este tema das atuais relações entre corpo e ambiente urbano e, também, conhecer outras formas de abordá-lo, criamos um site para divulgar o conjunto de ações integradas que denominamos Plataforma Corpocidade, com o proposito de subsidiar o debate em torno do tema.

 

A primeira dessas ações foi a realização do encontro acadêmico Corpocidade: debates em estética urbana, que ganhou periodicidade bienal e desdobrou-se em atividades de intercâmbio institucional, publicações e projetos de pesquisa, tornando-se um campo de experimentação e maturação da ideia de corpografia urbana, que passamos a desenvolver juntas para sintetizar nossa compreensão sobre a coimplicação entre corpo e cidade.

 

Buscando testar outras articulações entre corpo e cidade como estratégia de redesenho de suas condições participativas no processo de formulação da vida pública em que estão implicados, tomamos a arte e a experiência corporal como potências questionadoras de consensos forjados pelos planejamentos e politicas urbanas espetaculares, e como fatores de explicitação dos conflitos que o espetáculo urbano busca ofuscar.

 

CORPOCIDADE 1 – Espetacularização Urbana Contemporânea

(Salvador 2008/ Weimar 2009):

 

Na 1a edição, o encontro CORPOCIDADE testou um formato híbrido entre acadêmico e artístico, que admitia inscrições de propostas teóricas de comunicações e de propostas artísticas de intervenção urbana dentro das quarto sessões temáticas propostas por pesquisadores vindos de diferentes disciplinas (História, Artes Plásticas, Dança, Arquitetura, Urbanismo, Psicologia): Cidades imateriais; Cidade como campo ampliado da arte; Corpografias urbanas; Modos de subjetivação das cidades. Desse modo, além de concretizarmos a desejada articulação entre teoria e arte, também estendemos os desdobramentos do evento ocorrido na Universidade para os espaços públicos da cidade, que foi local de realização de intervenções urbanas criadas por artistas selecionados, e realizamos oficnas de apreensão da cidade, em bairros populares de Salvador.  

 

O primeiro encontro partiu da questão do processo de estetização acrítico e segregador que chamamos de espetacularização urbana – ou cidade-espetáculo – que está diretamente relacionado a uma ‘esterilização’ tanto da participação cidadã quanto da própria experiência corporal das cidades enquanto prática cotidiana, estética ou artística no mundo contemporâneo. Partiu-se da premissa de que o estudo das relações entre corpo – corpo ordinário, vivido, cotidiano – e cidade, poderia mostrar alguns caminhos alternativos, desvios, linhas de fuga, micro-políticas ou ações resistência a este processo de espetacularização – da cidade, da arte e do próprio corpo – na atualidade.

 

Como desdobramento da interlocução estabelecida no Corpocidade 1 entre estudantes do nosso grupo de pesquisa na UFBA e os estudantes do curso de mestrado em Arte Pública e estratégias urbanas da Bauhaus Universität Weimar, consolidamos um intercâmbio institucional entre as 2 universidades para realizar uma experiência de intervenção artística no espaço público em Weimar, no âmbito das comemorações do 90 anos da Bauhaus. Denominada Koca Inn, a experiência envolveu estudantes da UFBA e estudantes da Bauhaus e resultou na publicação do livro Koca Inn, publicado em 2010.

 

Depois do 1o encontro, percebemos a necessidade de pensá-lo não mais como um fim em si mesmo, mas como uma dentre outras configurações possíveis ao projeto de reflexão crítica sobre as relações entre corpo e cidade. A própria experiência colaborativa de formatação e planejamento do encontro mostrou-se de tal modo enriquecedora dos nossos ideais de interlocução que decidimos expandir o raio de ação e ressonância do encontro. CORPOCIDADE passou, então, a constituir-se numa plataforma de ação, desenvolvida para articular diferentes projetos dedicados à difusão de idéias e realização de atividades, gerados como configurações dos desdobramentos de um mesmo processo de reflexão crítica interdisciplinar acerca do tema estética urbana e seus sub-temas correlatos. Além do próprio encontro CORPOCIDADE, até este momento integram a plataforma: a publicação da revista ReDobRa e do livro Corpocidade debates, ações e articulações; além das oficinas e trabalhos de intervenção urbana propostos por artistas, arquitetos e urbanistas durante os encontros; a experiência de ação artística-urbana Koca Inn, realizada pelo intercâmbio entre estudantes de Arquitetura da UFBA com estudantes da Bauhaus em Weimar; e oficinas de experimentação de metodologias de apreensão da cidade desenvolvidos por grupos de pesquisa e coletivos artísticos participantes do encontro Corpocidade.

 

O objetivo da Plataforma Corpocidade é articular arte e urbanismo como um processo de construção de uma zona de transitividade: um campo de ação comum baseado na co-operação entre as proposições de cada área, em busca de conexões que mobilizem experiências re-organizativas de seus respectivos regimes de funcionamento e estados de equilíbrio, de modo que favoreçam a produção de novas coerências. Desse modo, Plataforma Corpocidade atua simultaneamente como campo de produção e compartilhamento de experiências de articulação entre pesquisa e arte dedicadas à confrontação crítica do problema das relações entre corpo e cidade no atual processo de espetacularização urbana.

 

 

CORPOCIDADE 2 – Conflito e dissenso no espaço público

(Alagados, Salvador 2010 e Maré, Rio de Janeiro 2010)

 

Na 2ª edição do CORPOCIDADE buscamos politizar a discussão sobre a questão da “esterilização” da experiência urbana pelo processo de espetacularização das cidades, enfocando como tema CONFLITO E DISSENSO NO ESPAÇO PÚBLICO e acrescentamos uma instância de ação aos evento que debates, pela sua articulação com trabalhos coreográficos que atuaram como catalizadores e problematizadores das discussões. Entendendo o papel da arte como criadora de novas formas de partilha do sensível e, portanto, a dimensão política da estética, a programação incluiu a apresentação cênica de 2 obras de dança contemporânea brasileira, escolhidas por tematizarem os conflitos e tensões entre corpo e cidade em diferentes contextos. Desse modo, pretendemos instaurar um processo de construção de debates que fossem resultantes da experimentação coletiva de hipóteses teóricas e artísticas propostas por um grupo de trabalho que testou padrões colaborativos entre artistas, professores universitários e líderes comunitários de dois contextos urbanos escolhidos como sede do encontro. O próprio processo foi, assim, adotado como formato do encontro, para testar um outro modo de articulação entre arte e urbanismo, diferente daquele experimentado no primeiro encontro, em que as ações artísticas ocorriam nas ruas da cidade paralelamente ao debate ocorrido na universidade.

 

Para discutir o tema CONFLITO E DISSENSO NO ESPAÇO PÚBLICO desta segunda edição, o encontro saiu da universidade e levou seu debate para contextos urbanos cuja histórica situação de exclusão dos projetos urbanos da administração pública configura forte resistência ao processo de espetacularização das cidades: as favelas da Maré, na cidade do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro), e de Alagados, na cidade de Salvador (Bahia). E a dinâmica de trabalho não mais se baseou na apresentação de formulações previamente prontas, mas baseou-se na construção da própria matéria do debate, a partir de uma experiência de convívio intensivo e imersão naqueles contextos, pelo grupo de estudantes e pesquisadores (de Dança, Arquitetura e Urbanismo, Sociologia, Antropologia, Psicologia) parceiros da Plataforma Corpocidade, convidados a participar juntamente com alguns moradores já engajados em organizações civis de ação política locais. Em cada local, os trabalhos foram antecedidos pela apresentação cênica de duas formulações coreográficas, cujas propostas estéticas já tematizavam as questões de conflito e negociação pela coexistência com alteridade, e que atuaram como provocações e ponto de ignição dos trabalhos do grupo participante do encontro: No Rio de Janeiro, foi apresentada a coreografia “Pororoca” da coreógrafa Lia Rodrigues, diretora e fundadora da Lia Rodrigues Companhia de Danças (então, residente no Centro de Artes da Maré há 2 anos); e, em Salvador, foi apresentada a situação coreográfica “SIM – ações integradas para ocupação e resistência” do coreógrafo Alejandro Ahmed, diretor-fundador do Grupo Cena 11, de Florianópolis (sem espaço próprio de trabalho há 15 anos). Após 2 dias de convívio e trabalho sem condução hierárquica, nem palnejamento ou roteiro prévios, os sub-grupos espontaneamente formados dedicaram-se a organizar uma síntese das suas andanças, discussões, desentendimentos, percepções, conclusões e questões que foram levadas ao debate público com outros participantes – previamente inscritos com “provocações” selecionadas – realizado no 3º dia, em cada cidade, desta vez, nas dependências da universidade.

 

Todas essas escolhas tiveram implicações que nos levaram, de um lado, a consolidar uma caminho de compreensão sobre as relações entre corpo e cidade formulada pela noção de corpografia e, de outro, a repensar os caminhos de ação concreta testados por urbanistas e artistas nos encontros CORPOCIDADE, quanto aos métodos de ação e às suas funções específicas no processo de apreensão crítica da cidade contemporânea.

 

CORPOCIDADE 3 – Experiências metodológicas de apreensão da cidade

(Salvador 2012/ Paris 2013)

 

Na 3ª edição do encontro CORPOCIDADE intensificamos a relação entre pesquisa e arte realizando o encontro articulado a outros dois projetos de pesquisa, cujas equipes e temas coincidiam e, assim, enriqueceram-se reciprocamente[1]. O encontro, denominado CORPOCIDADE 3: Cidade & Cultura + Experiências Metodológicas, partiu da noção ampliada e encarnada de cartografia que levaria a uma prática mais incorporada do urbanismo e enfocou, como tema central, as possibilidades de experiência corporal da cidade e seus modos de compartilhamento e transmissão (formas narrativas), tensionando as noções de corpo, cidade e cultura. Tomando a noção de experiência como princípio norteador destas investigações metodológicas, mantivemos o mesmo formato adotado no 2º encontro, de construção dos debates a partir da matéria resultante de experiências: foram realizadas oficinas– denominados “experiências metodológicas” – propostos por grupos de pesquisa ou coletivos de artistas, que testaram, com seus participantes inscritos, diferentes procedimentos de apreensão da cidade ao longo de 2 dias, em diferentes áreas da cidade de Salvador, e apresentaram, no 3º dia, a síntese das suas experiências num encontro entre todos os coordenadores e participantes das oficinas, denominado “Seminário de Articulação”. Em seguida, em outro seminário, desta vez, aberto à participação pública, as narrativas dessas oficinas foram articuladas a outras narrativas de experiências já realizadas em outras oportunidades por outros pesquisadores ou artistas. Desse modo, as práticas de trabalho de campo tiveram seu significado e seu alcance expandidos por uma concepção ampliada de cartografia, entendida como um processo de compreensão da cidade pelo corpo mas, também, simultaneamente, uma prática narrativa da própria experiência urbana.

 

O CORPOCIDADE 3 mobilizou ampla discussão sobre a prática cartográfica no campo da arte e do urbanismo à luz da noção de corpografia, apontando a necessidade de se construir modos de mapeamento da própria condição processual e micropolítica das conformações da vida urbana, questionando-se os pressupostos da representação e atentando-se para a idéia de produção e criação na prática cartográfica, mobilizado pela atitude investigativa do sujeito-pesquisador coimplicado no campo de forças que pretende explorar, transitar, atuar, constituir.

 

Em continuidade a esse nosso histórico de articulação entre Arte e Urbanismo na experimentação de procedimentos de apreensão da cidade e de modos de compartilhamento das narrativas resultantes dessas experiências, passamos a considerar as variadas temporalidades implicadas nesse processo e, neste momento, iniciamos uma experiência apreensão da cidade num eixo de duração mais longo, buscando testar modos de apreender justamente a experiência de transformação da cidade[2].

 

 

 

Considerações finais :

 

O espaço público, se reconhecido, por excelência, como locus do conflito, inclui agentes e mobiliza agenciamentos muito mais diversos e contraditórios do que se desejaria ou se costuma identificar. Enquanto a arte, se reconhecida como locus da experiência, promove percepções espaço-temporais muito mais complexas do que sugerem os efeitos moralizadores e individualistas normalmente atribuídos à contemplação cenográfica. Enquanto a construção de consensos busca reduzir os conflitos e é uma forma ativa de despolitização, o desentendimento ou a construção de dissensos seria uma forma de resistência. É precisamente essa configuração consensual que solicita a intervenção da arte como fator de explicitação desses conflitos e potência questionadora de consensos estabelecidos.

 

O espaço público e a experiência artística constituem, assim, aspectos da vida humana cuja dinâmica tanto promove quanto resulta dos modos de articulação entre corpo e os ambientes urbanos, fazendo da estética urbana um tema de interesse crescente por parte dos diferentes campos do conhecimento e áreas de atuação pública, que vêem lhe conferindo diferentes enquadramentos de abordagem e espaços de manifestação. Do Urbanismo às Artes, da Cidade ao Corpo, das políticas públicas aos modos de subjetivação, passando pelas organizações coletivas de ativismo político e cultural, muitos são os focos de preocupação teórica acerca do tema. Seu caráter multifacetário é, justamente, desafiador de estratégias de enfrentamento alternativas aos modos habituais de condução, e indicam a necessidade de uma abordagem interdisciplinar capaz de articular os diversos aspectos da questão.

 

Na perspectiva proposta pela Plataforma Corpocidade, a experiência corporal da cidade busca atuar como micro desvio da lógica espetacular, procurando por uma noção mais incorporada de urbanismo e, com ela, uma percepção mais conseqüente da nossa participação cidadã urbana. A arte, assim, adquire papel crucial na instauração de outras formas, heterogêneas e tensionadoras, de partilha do sensível e de produção de subjetividades, tão necessárias à constituição do espaço público, da esfera pública, como horizonte critico.

 

[1] 3º seminário do projeto de pesquisa Cidade & Cultura (financiado pelo Programa Pró-Cultura – CAPES/MinC) e 1º seminário do projeto de pesquisa Experiências metodológicas para compreensão da complexidade da cidade contemporânea (financiado pelo Programa PRONEM – FAPESB/CNPq), desenvolvido pelo grupo de pesquisa Laboratório Urbano do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA.

[2] Esta experiência em curso desde setembro/2012 está sendo realizada simultaneamente em Salvador, Paris e Roma, pelas equipes do Laboratório Urbano (PPGAU-UFBA), Laboratoire Architecture Antropologie (ENSA Paris La Villette) e Laboratorio Arti Civiche (Univ. Roma Tre), e deverá ser avaliada e discutida num encontro das 3 equipes, programado para fevereiro de 2013, em Paris.