Memória e Invisibilidade, O método etnográfico no trabalho de Sophie Calle, Patrícia Azevedo Santos

Memória e Invisibilidade, O método etnográfico no trabalho de Sophie Calle

Este trabalho partiu do meu interesse por algumas das questões abordadas, particularmente, num dos textos dados no contexto da disciplina [1], «O Artista como Etnógrafo», de Hal Foster que propõe um novo paradigma para a intervenção do artista. Assim, este ensaio propõe, de forma sucinta, a abordar algumas destas questões – nomeadamente quanto aos processos pelos quais e através dos quais é definida a prática artística e a forma de trabalhar no espaço público – em paralelo com uma abordagem ao trabalho de Sophie Calle que considero paradigmático neste, não tão recente, desenvolvimento de uma prática artística “quase-antropológica”, que explora e faz uso do método etnográfico para o desenvolvimento de uma espécie de arqueologia social que emprega estratégias de recolha, de documentação, e apresentação características das ciências sociais para a produção de objectos artísticos. A etnografia está em constante movimento entre culturas (cf. Clifford, 1988). Talvez tenha sido esta a característica inerente à prática etnográfica, o deslocamento intercultural, que tenha suscitado o interesse dos artistas e tenha despoletado, porventura, aquilo a que Foster diz tratar-se de uma espécie de inveja, primeiro por parte do artista, por esta lógica, e, posteriormente, quando os artistas começaram a reinventar os métodos etnográficos, do etnógrafo em relação ao artista. Contudo, este deslocamento não necessitou, necessariamente, para que tal acontecesse, que o artista atravessasse fronteiras, o outro étnico, o primitivo, do “ali” [2], interessa menos do que o outro cultural ou social, que encontramos “aqui”.
A questão da alteridade é identificada por Hal Foster como sendo peremptória para o desenvolvimento de alguma da prática artística que se assume agora com características próximas às das ciências sociais, nomeadamente, a antropologia enquanto ciência que tem a cultura como objecto e cujo campo expandido de referências não poderia deixar de fascinar, dado o seu carácter necessariamente interdisciplinar e contextual, os artistas da actual condição pós-medium da arte. Assim, verificou-se um interesse sem precedentes pelo quotidiano, um impulso em direcção ao espaço público que confrontou a produção e a recepção com uma realidade completamente distinta daquela à qual os artistas vinham sendo habituados no interior dos contextos museológicos e implicou que os artistas que trabalham agora neste novo contexto adoptassem, necessariamente, posicionamentos operativos, processuais, metodológicos e até mesmo éticos que exigem a negociação de uma miríade de tensões e fronteiras sociais, políticas, culturais (de classe, de género, sexuais, raciais, etc.) que são actualmente objecto de um questionamento crítico aprofundado.
Estas tensões podem apresentar-se como entraves à produção/recepção do trabalho artístico, há que, na melhor das hipóteses, definir os níveis de actuação e envolvimento quando se sabe, partindo do princípio que “se sabe”, que os processos pelos quais decidimos “fazer arte” irão, inevitavelmente, legitimar, de alguma forma, algumas destas tensões em/como oposição a outras. Com isto, queria chegar à conclusão que, esta forma de legitimação, posicionamento, processo, ou outra forma que queiramos chamar para nos referirmos ao “fazer arte” no espaço público poderá operar a níveis mais ou menos subtis, e a representação de uma determinada realidade (social, política, económica, etc.) poderá ser mais ou menos marcada, mais ou menos comprometida (localmente comprometida), mais ou menos eficaz ou, se quisermos, sustentável.

Calle faz uso da presente tensão etnográfica e ainda da encenação e da manipulação das relações eu/outro que em larga medida se circunscrevem no modelo etnográfico, no qual o trabalho de campo é usado para reconciliar teoria e prática e reforçar os princípios básicos da tradição participante/observador. (Kuchler, 2001: 95) [3]

O trabalho de Sophie Calle é, poder-se-ia dizer, sem excepção, pautado pelo recurso ao método etnográfico enquanto estratégia de comunicação da sua reflexão sobre questões relacionadas com a memória e o desvanecimento da sua relação com a materialidade, um dos dilemas enfrentados hoje pela cultura visual (cf. Kuchler, 2001: 94). Na tradição da arte conceptual, muitos dos seus projectos abordam e documentam longos processos de observação que, na acumulação de dados, são representados sob a forma de fotografias – quase sempre a preto e branco, naturezas- mortas, estáticas e inexpressivas – textos, livros, objectos retirados do quotidiano que, posteriormente, são reeditados e organizados em publicações e/ou instalações.
Na sua maioria, os seus projectos abordam espaços públicos em contextos culturais específicos, onde são empregues estratégias de observação-participante que são, muitas vezes, desconstruídas no que respeita à forma como são conduzidas, como colaboram, de forma inovadora, com a comunidade – como é o caso de «Suite Venietiene», um projecto documentado em fotografias e texto, levado a cabo no Bronx (Nova Iorque) no qual, todos os dias, à mesma hora, Calle pedia aos transeuntes que lhe mostrassem, os seus lugares favoritos, conduzindo-a até ao local -, e, por fim, como são dadas a conhecer, i.e., como são expostas ou, se assim quisermos, divulgadas. Caracterizados por uma espécie de arqueologia social, Calle assume o papel de etnógrafa, contudo enfatizando o registo emocional.

(…) o etnográfico é encontrado em situações que acontecem por acaso e, ainda assim, se tornam uma plataforma para memórias cuja documentação e exposição transforma o projecto num trabalho artístico. (Kuchler, 2001: 98) [4].

Assim, Calle desempenha o papel de uma espécie de “porta-voz”, funcionando como uma espécie de catalisadora para potenciais histórias autobiográficas que, muitas vezes, questionam os espaços públicos, as suas representações e as memórias a eles associadas, esbatendo, desta forma, as fronteiras entre o público e o privado (ao inserir o “pessoal” e “subjectivo” na reflexão sobre o lugar, habitualmente veiculado a discursos de poder que o tentam “estabilizar” e unificar (lembremo-nos da tradição do monumento por exemplo) através de formas de representação visual e subtilmente inquietantes e sedutoras.

«The Detachment», é um projecto que Calle desenvolveu em Berlim, em 1996, apresentado como uma instalação que combinava textos, que consistiam em entrevistas anónimas e pessoais, e uma série de fotografias a preto e branco (que retratavam os espaços com os monumentos, i.e. o passado) e a cores (retratando os espaços actuais, depois de terem sido retirados os monumentos, i.e. o presente):

Para registar este processo, visitei lugares em relação aos quais os símbolos da história da RDA [Republica Democrática Alemã: Alemanha de Leste] foram removidos. Pedi aos transeuntes que descrevessem os objectos que haviam ocupado aqueles espaços agora vazios. Fotografei a sua ausência e substitui os monumentos em falta com as suas memórias. (Sophie Calle) [5].

Ilust. 1: «The Detachment», Sophie Calle, 1996.

Num lugar com um significado político muito particular, amplamente representado, e extremamente mediático, pode ocorrer a “tentação” de fazer uso (inconscientemente ou não) desse mediatismo em prol de um certo desejo de autenticidade, a tentação da auto-formulação, de cair numa representação fácil e meramente antropológica (cf. Foster, 2004: 33), contudo Calle abordou o lugar a partir de uma perspectiva diametralmente oposta da típica abordagem tendenciosa: em  partes perfeitamente consolidadas enquanto opostos políticos e/ou culturais [6]. Admiravelmente, afastando-se destas questões, Calle dirigiu a sua atenção para um nível bem mais “invisível” que, ainda que de forma subtil e não deixando de tocar estas questões – mas de forma transversal e indirecta -, não tem, por isso, menos “força”.
Os seus projectos, abordaram sempre a cidade do ponto de vista da experiência do quotidiano, optando, neste projecto em especial, por delinear uma vivência que se manifesta a vários níveis (significado público e memórias pessoais) sobre monumentos que deixaram de existir mas que detêm uma importância primordial na história (esfera pública) e na vida das pessoas locais (esfera privada), nas suas representações (político-sociais) do conceito de “monumento” e de cidadania. Apesar de ser um projecto realizado para um local específico, este não se encontra perfeitamente delineado e circunscrito no tempo porque o lugar é também discursivamente determinado e, por isso, subjectiva e abstractamente passível de ser representado.

Ilust. 2: «The Detachment», Sophie Calle, 1996.

Tendo como ponto de partida o desaparecimento de vários tipos de monumentos (estátuas, memoriais, nomes de ruas) da RDA que, após a sua deposição viram-se destituídos do conteúdo social e ideológico do anterior regime, efectuou um registo dos lugares de onde estes monumentos haviam desaparecido e pediu aos seus transeuntes para descreverem o que antes preenchia aqueles espaços agora vazios. Através de diferentes estratégias de registo e documentação, Calle questiona geográfica e simbolicamente a forma como a Berlim reunificada se identifica com/a partir da sua própria história, ao mesmo tempo que levanta questões, comuns a muitos dos seus trabalhos, como por exemplo: até que ponto e quais as formas que nos socorremos para evocar o passado?; como é que a memória e a identidade nos definem?.
A abordagem etnográfica de Calle enuncia-se através de um conjunto de documentos sugestivos com uma representação simbólica e afectiva, emocional, presente mas sem ser demasiado subjectiva, composta por memórias pessoais dos monumentos no quotidiano, em oposição com as tradicionais conotações históricas, políticas e sociais a eles adjacentes, demonstrando como os monumentos detêm a sua existência própria, quanto mais não seja, na memória colectiva das pessoas, e nas suas representações da cidade e da sua história, evidenciando, desta forma, uma concepção de espaço público não só social (Lefebvre [7]) mas também ideologicamente concebido.

Porto, Junho de 2008

[1] Os conteúdos reunidos neste ensaio foram desenvolvidos no contexto da disciplina Arte e Design para o Espaço Público, no âmbito do Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público, FBAUP, em 2008.
[2] Inclusivamente, Hal Foster critica duramente, a antropologia por definir este primitivo em função da distância – quanto mais remoto, mais primitivo (cf. Foster, 2004: 17).
[3] Tradução pessoal do original: «Calle’s use of ethnographic present tense and also her staging and manipulation of self/other relations draws heavily on the ethnographic model, in which fieldwork is used in order to reconcile theory and practice and to reinforce the basic principles of the participant/observer tradition. »
[4] Tradução pessoal do original: « (…) the ethnographic is found in situations which are born out of chance and yet become the platform for recollections whose documentation and installation turns the project into an artwork. »
[5] Tradução pessoal do original: «To record this process, I visited places from which symbols of GDR [German Democratic Republic-Alemanha de Leste)history have been effaced. I asked passers-by and residents to describe the objects that once filled these empty spaces. I photographed their absence and replaced the missing monuments with their memories.» (Sophie Calle). Disponivel on-line: http://webarchiv.bundestag.de/archive/2006/0706/bau_kunst/kunstwerke/calle_eng/index.html. [Consultado em: 25-06-08].
[6] Refiro-me às divisões políticas da história recente da Alemanha Ocidental e Oriental.
[7] Henri Lefebvre, « The Production of space», Oxford : Blackwell, 1991.

Bibliografia

• FOSTER, Hal, «O Artista como Etnógrafo» (1996), tradução de Nuno Castro, 2004. In Marte, «O “Novo” na Arte de Hoje», Março, 2005, Número 1, pp. 10-40.
• KUCHLER, Susanne, «The Art of Ethnography: The Case of Sophie Calle». In Coles, Alex (ed.), «Site-Specificity: The Ethnographic Turn», Black Dog Publishing Limited, 2001, pp. 94-110.
• YVE-ALAIN, Bois, «Paper Tigress». In: October, Spring 2006, Nº: 116, pp. 35-54.

Documentos electrónicos

• CLIFFORD, James, «The Predicament of Culture: Twentieth Century Ethnography, Literature, and Art», Cambridge: Harvard University Press, 1998. Disponível on-line (introdução): http://www.writing.upenn.edu/~afilreis/88/clifford.html [Consultado em: 20-06-08]
• Deutscher Bundestag, «Sophie Calle: ‘Die Entfernung – The Detachment». Disponivel on-line: http://webarchiv.bundestag.de/archive/2006/0706/bau_kunst/kunstwerke/calle_eng/index.html. [Consultado em: 20-06-08].
• GRIFFIN, Matthew, «Undoing Memory». In PAJ: A Journal of Performance and Art, Vol. 22, No. 2, Berlin 2000 (May, 2000), pp. 168- 170. Disponível on-line: http://www.jstor.org/pss/3245902.
• SCHMIDT, Albert J., « The Ghosts of Berlin: Confronting German History in the Urban Landscape. Review – book review». In Journal of Social History, Spring, 2000. Disponivel on-line: http://findarticles.com/p/articles/mi_m2005/is_3_33/ai_61372263. [Consultado em: 25-06-08].

Ilustrações

Todas as ilustrações estão disponíveis on-line: http://webarchiv.bundestag.de/archive/2006/0706/bau_kunst/kunstwerke/calle_eng/ index.html.

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